Divisão de cotas de tevê no Brasil deve ser como na Bundesliga
Borussia Dortmund: de quase falido há 10 anos a um lucro de 45 milhões de euros em 2012. Seu estádio recebe a lotação máxima de 80 mil pessoas em todos os jogos.
O Brasil anda meio engraçado. Não se espante se um dia desses você receber um e-mail convidando-o para assistir a uma palestra de um cientista da Albânia, ou de um marqueteiro da Bolívia. Suécia? Dinamarca? Noruega? Gênios financeiros de Wall Street? Não servem. E no caso da distribuição de cotas da tevê aos clubes de futebol, obviamente se adota o modelo espanhol, fórmula que só agrada a dois clubes e condena os demais à eterna coadjuvância.
Na Bundesliga, em que a colocação do time no campeonato é levada em conta na hora de distribuir a verba da TV, o estratosférico Bayern de Munique recebeu 29,96 milhões de euros (R$ 71,9 milhões) ao final da temporada passada, enquanto o desconhecidíssimo Saint Pauli, rebaixado para a Segunda Divisão, abiscoitou 13,2 milhões de euros (R$ 31,68 milhões). Vê-se que mesmo entre equipes tão opostas, a diferença de valores não foi constrangedora como no Brasil, em que os dois primeiros da lista recebem quatro vezes mais do que os últimos.
Na semana passada os 36 clubes da Primeira e Segunda Divisões do futebol alemão assinaram um novo contrato com as duas cadeias de televisão públicas do país e com a Sky pelo qual receberão até 2017 um total de 2,5 bilhões de euros (R$ 6 bilhões), um bilhão a mais do que no último contrato. Competitivo, com estádios lotados e clubes fortalecidos, o futebol alemão está mais cheio que caneca da Oktoberfest.
Os segredos, óbvios, da Bundesliga
Gastar menos do que arrecada, ter muitos sócios e cobrar pelas entradas preços acessíveis à classe média – estes são alguns dos segredos do sucesso da Bundesliga.
Com ingressos baratos, a média de público nos modernos estádios alemães alcança 45 mil torcedores. Mesmo assim, o valores dos ingressos praticamente não sobem há sete anos.
O Borussia Dortmund, virtualmente falido há dez anos, resolveu aproximar-se do seu torcedor, passou a adotar ingressos baratos (média de 11 euros, cerca de 33 reais), investiu na formação de atletas em suas categorias de base e na prospecção em clubes menores, chegando a obter um lucro de 45 milhões de euros em 2012. Sua média de público alcança 80 mil pessoas.
Mas é claro que só a divisão mais democrática do dinheiro da televisão não garantirá o equilíbrio de forças, pois há outros fatores que interferem no poder econômico dos clubes, que são: patrocínio, merchandising, quantidade de sócios e arrecadação.
Quem é contra a mudança do sistema brasileiro, que segue o rumo da espanholização, para o da Alemanha, gosta de dar o exemplo do Bayern, que mesmo inserido em um sistema mais justo, que favorece a mérito, ainda assim se destaca bem mais do que seus concorrentes. O caso, porém, é que o Bayern se destaca justamente pelo mérito de sua eficiência.
Há 24 anos o clube apresenta superávit financeiro, ou seja, arrecada mais do que gasta. Eu disse 24 anos! Por aí já se percebe que não pode haver nenhuma comparação entre o grande alemão e qualquer clube brasileiro. Em segundo lugar, o Bayern consegue uma arrecadação maior por ter 10 milhões de torcedores. E aqui são torcedores-consumidores, ao contrário das torcidas brasileiras, das quais nenhuma chega a ter um milhão de consumidores de produtos oficiais do clube.
Este blog não é mais uma voz no deserto
A gritaria contra a espanholização, que no Brasil começou com tímidos murmúrios – entre eles os deste humilde blog –, hoje ganha corpo. O presidente do Goiás, Sergio Rassi, é o mais recente engajado. Ele diz que já tem apoio de Coritiba, Atlético-PR, Bahia, Vitória e Sport. A ideia é adotar uma fórmula parecida com Bundesliga alemã, a Premier League inglesa ou a Série A italiana. Grassi explica:
“Funcionaria mais ou menos assim: 60% do valor seria repartido igualitariamente entre os 20 times, enquanto que 20% seriam pela exposição na mídia e o outro 20% pelo desempenho em campo. Seria mais justo. A única liga que não segue isso é a espanhola. Não por acaso tem um futebol sem graça, restrito basicamente a dois clubes, com um terceiro surgindo de vez em quando. As demais têm uma alternância de títulos”, afirma.
Espero que o esforço de Sergio Grassi seja recompensado. Não há porque os grandes clubes brasileiros temerem a concorrência. Eles ainda terão mais facilidade para conseguir patrocinadores e atrair público para seus jogos, além de maior audiência na tevê. É evidente, porém, que precisarão ser mais competentes, o que, grosso modo, contribuirá para o crescimento do nosso futebol.
E pra você, a Bundesliga deve ser o exemplo para o futebol brasileiro?
Fonte: Odir Cunha
Painho nos enganou..