Publicado: 26/01/2015 14:33 BRST Atualizado: 26/01/2015 14:46 BRST

Eric Cantona foi uma das personalidades mais controversas do futebol nos anos 90. Tal e qual um Edmundo francês, era genial com a bola nos pés, mas também capaz de cometer as maiores atrocidades contra colegas de time, adversários, treinadores, árbitros, jornalistas e até torcedores, como fez naquele 25 de janeiro de 1995, no empate de 1 a 1 do seu Manchester United com o Crystal Palace.
A voadora à la Jackie Chan que mandou pra cima do torcedor do Palace, que xingou o jogador e sua mãe após ele ser expulso por dar uma entrada violentíssima num adversário, foi, digamos, a cereja de um gigantesco bolo de confusões, brigas, arranca-rabos, barracos e várias outras cenas lamentáveis.
No final de 1996, portanto às vésperas de terminar a suspensão que lhe foi imposta por conta do incidente - além da suspensão de oito meses do futebol, monsieur Cantona também foi condenado a alguns meses de prisão, a prestar serviços comunitários e a pagar mais de 30 mil libras em multas aplicadas pelo clube e pela Federação Inglesa -, durante uma viagem para passar o Natal na casa de parentes em Valence, no sudeste da França, vi uma matéria no canal canal EuroSport inteiramente dedicada a esse mestre do futebol politicamente incorreto. Sentado à mesa de um bar, acompanhado de um primo português e alguns amigos, assistimos a um festival de socos, pontapés, cusparadas e até um humilhante tapa de mão aberta desferido bem no meio das fuças do treinador que caiu na asneira de ir cumprimentar o infant terriblé após tê-lo substitído ainda no primeiro tempo. Entre um gole e outro de vinho, alguém da mesa comentou: "Este sujeito tem o pavio muito curto.". Discordei na hora, dizendo: "Não, cara! Ele simplesmente não tem pavio". Todos concordaram.
Apesar de ter ficado marcado pelo episódio da voadora, engana-se quem pensa que Cantona foi só um colecionador de problemas. Ele jogou muita bola! Ganhou seis títulos nacionais em sete anos, sendo um na França pelo Olympique Marseille e quatro na Inglaterra - o primeiro pelo Leeds United e os demais pelo Manchester. Foi protagonista de quase todas essas conquistas. O título só não veio na temporada 95/96, justamente a da punição. Ganhou também algumas Copas da Inglaterra, inclusive uma contra o arquirrival Liverpool, quando marcou o gol da vitória aos 41 do segundo tempo, e se tornou o primeiro não britânico a erguer a taça de campeão como capitão dos Red Devils, posto que manteve até sua aposentadoria precoce do futebol, aos 30 anos.
E por que parou tão cedo? Porque, nas palavras do próprio, apesar de ainda amar o jogo, não tinha mais saco para ir cedo para a cama, deixar de sair com amigos para beber, fumar e curtir a vida à vontade. Mesmo sabendo que poderia fazer todas essas coisas e ainda assim descolar uma boa grana atuando mais alguns anos em clubes dispostos a pagar para contar com um nome de peso como o seu. Seria fácil para ele. Porém, preferiu não agir como muitos de seus colegas consagrados e não deu uma de "ladrão", gíria utilizada pelos boleiros para definir aquele cara que assina contrato com um clube e apenas finge ainda ser profissional para poder continuar a receber os bons salários que o futebol geralmente paga. Caras como Ronaldinho Gaúcho, Carlos Alberto, Roger Chinelinho, Bruno Cesar, Valdívia e outros que em determinado momento de suas carreiras viraram autênticos ex-jogadores em atividade.
Afastado dos gramados, voltou ao futebol como jogador e treinador da seleção francesa de futebol de areia, funções que também abandonou após poucos anos para se dedicar ao trabalho na TV, onde brilhou como estrela de campanhas da Nike, e no cinema, tendo já atuado em uma ou outra produção relevante e dirigido alguns bons documentários. Poucos anos atrás, durante uma edição do mundial de futebol de areia, no Rio, o encontrei num bar na Lapa, onde se divertia com outros membros da seleção da França e uma mulher, que julguei ser sua esposa. Simpática e animada, ela dançava sem parar, com ou sem ele. Em dado momento, virou-se para mim e, em inglês, me perguntou se não gostaria de acompanhá-la no arrasta-pé. Conhecendo a fama de seu acompanhante e temendo pelo que poderia acontecer aos meus dentes, agradeci gentilmente e saí para buscar uma cerveja.
Golpes de kung fu à parte, jogadores como Cantona, Edmundo, Serginho Chulapa, Almir Pernambuquinho, Túlio Maravilha, Renato Gaúcho, George Best, Adriano e vários outros como eles fazem uma falta danada ao futebol, cada vez mais inundado por falsos bons moços e zé roelas que andam por aí a pregar a castidade e inventar dancinhas ridículas e que passam mais da metade dos seus dias segurando um pau de selfie. Sujeitos como o insuportável David Luiz e suas fotos com a língua de fora, Neymar e suas coreografias escrotas, seus penteados patéticos e aquelas expressões infantilóides, que o fazem parecer um completo retardado mental, e, finalmente, aquele mala do Thiago Silva, o capitão chorão, são muito mais nocivos ao futebol do que os chamados bad boys. Com um comportamento artificialmente forjado por assessorias de imprensa e de imagem somado a um discurso alimentado por provérbios bíblicos, pagodes ~românticos~, música gospel e sertanejos universitários escutados em extravagantes fones de ouvido coloridos, esses caras tornaram-se pessoas intragáveis e absolutamente desinteressantes; são ídolos de meia-tigela, admirados somente por garotinhos de condomínio igualmente chatos, do tipo que já nascem jogando bola com chuteiras rosas e em campos de grama sintética, que é pra não machucar o pezinho. São os grandes expoentes da geração 7 a 1, que, a propósito, foi pouco.
A sociedade como um todo vem sofrendo um processo acelerado de "babaquização". No Brasil, é possível perceber de forma cada vez mais clara a presença de indiíviduos como Tiago Leifert, Luciano Huck, Marcos Mion, Danilo Gentili e outros representantes desse clube dos manés. O dito novo rico, classe a qual pertencem 99% dos boleiros bem sucedidos, prima pela cafonice, pieguice, falta de originalidade, mau gosto, ignorância e total incapacidade de falar qualquer coisa que se aproveite. São topeiras endinheiradas. Tipo de gente que causa repulsa e nos faz sentir um constrangimento quase que insuportável. No futebol em que antes brilhavam Zico, Sócrates, Romário, Edilson, Caju, Vampeta, Neto, Tostão, Alex e um monte de outros que eram craques não só com a bola nos pés, hoje predominam micos amestrados, marionetes e joões bobos. Não sei se esse é um caminho sem volta. No entanto, uma rápida olhada em volta já é o bastante para que se possa perceber claramente que a luz no fim do túnel, se é que existe, ainda está bem longe de poder ser avistada.
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